DETROIT ROCK CITY.
Você tem que perder a cabeça em Detroit Rock City
O ano é 2010… Eu havia acabado de descobrir que pasmém, podia morrer. A notícia na época foi tão impactante na minha família que minha mãe não conseguiu nem me dar ela, foi meu tio que chegou apenas e disse com as suaves palavras: “Então, você ta doente e pode morrer”
E foi assim que aquele meu ano, virou de ponta cabeça. Mas beleza, o que tem a ver essa música do KISS?
Depois de meses exaustivos tentando medicações que não funcionavam, tirar sangue todos os dias, veio as últimas opções… Quimioterapia ou cirúrgia e como eu já havia feito cirúrgia, achei que a quimio seria algo “suave” — Ai que eu me enganei fortemente.
Eis que cheguei na salinha de quimioterapia para a primeira sessão e só tinha uma senhora ali dentro. E naquela TVzinha de tubo, estava passando o filme Detroit Rock City. Cara esse filme era uma tragicomédia para a minha situação naquele momento e mesmo assim eu estava curtindo muito ver ele.
“Ouço minha canção e ela me anima e soa forte, me diz o que preciso fazer”
Toda aquela história que as mães tinham que o KISS era uma banda do diabo, era muito engraçado ver isso sendo retratado naquele filme.
Eu to escrevendo isso 14 anos depois e levemente rindo, pois ainda sim com 28 anos eu amo rir da minha desgraça.
Eu lembro que tem uma cena que o Gene Simmons, começa a mostrar a língua e começa a sair um sangue ficticio.

Cara, imagine duas pessoas em uma sala de quimío uma senhora de idade e um adolescente, vendo um filme no qual tinha esses MALUCOS para não dizer outra coisa. Eu lembro da cena com exata perfeição.
Quando ele começa a soltar o sangue ficticio, a senhora que estava ao meu lado segurou o terço que ela tinha na mão e simplesmente estava com aquela cara de espanto, enquanto meus olhos brilhavam de ver aqueles caras do filme realizando o sonho de ver um show do KISS.
Eu sei que é “errado” rir, mas toda vez que eu lembro disso, eu não consigo me conter. Pois a senhorinha era muito o retrato das mães conservadoras do filme, então parecia que eu estava vivendo um paralelo com o filme ali naquele momento.
Minha relação com a música, é ativa nesses momentos de tragicomédia. E foi a partir desse momento que eu comecei a gostar do KISS. Muito pela memória que eles me geraram em um filme besteirol, em um momento que talvez eu precisasse rir ou de algum “alento” de jovens disfuncionais tentando perseguir algo que queriam muito.
Muito tempo depois da quimio também não ter dado certo, eu tive que fazer a cirúrgia e foram longos 4 meses de recuperação, que me privaram de muitas coisas que eu gostava. Resumindo eu perdi o ano de 2010 inteiro praticamente.
Mas em meio a isso tudo, quando já estava em casa essa porra desse filme voltou a passar no SBT. E foi muito diferente dessa vez, pois o caos daquele período todo já tinha passado.
E eu também não havia reparado que a música que toca no final do filme não é do KISS… E sim um cover do Thin Lizzy, que eu acabei pegando um gosto enorme e também gerava um significado para tudo que eu havia tido.
“Eles andaram perguntando se você estava por aí
Como você estava, onde poderia ser encontrado
Disse a eles que você vivia no centro da cidade
Deixando todos os velhinhos loucos”
Toda a sobrevida que essa música gerava ao final do filme era muito bom… E realmente fazia sentido, pois eu estava de volta a cidade.
Detroit Rock City foi um alento em um período meio complexo para um adolescente que ainda nem sabia o que seria dali pra frente, tal qual os do filme.
Definitivamente, os garotos voltaram a cidade.