Depois de longos anos, o Rancore retornou ao mundo com um novo trabalho. O álbum, intitulado Brio, entrega exatamente aquilo que os fãs mais esperavam da banda: sentimento, intensidade, profundidade e agressividade.
Admito que, para mim, Igor, foi um disco meio complexo de se absorver no início, talvez por soar tão diferente de seus antecessores. Brio carrega uma identidade própria — mais forte, crua e madura —, captando muito da vivência de cada integrante. Como o próprio Teco, vocalista da banda, mencionou em alguns momentos, este trabalho canaliza experiências muito pessoais. Isso faz com que o álbum seja uma audição desafiadora, mas, ao mesmo tempo, incrivelmente intensa e profunda.
Algumas faixas me chamaram mais atenção. Cordão de Ouro, por exemplo, foi a música que mais ouvi no álbum como um todo. Talvez ela retrate, de forma muito pura, o quão difícil tem sido escrever este texto. O Caggegi imprime um peso gigantesco nas músicas, e nesta não é nem um pouco diferente.
Qual tipo de relação nas nossas vidas é tão forte que “nem mesmo o tempo pode apagar”?
Eu quero viver já parte para uma outra vertente. Para quem luta todos os dias para se manter em pé e enfrenta seus próprios demônios, ela soa quase como um grito de sobrevivência. Aproveitando a deixa, parafraseio aqui um disco do Black Alien pelo qual tenho um apreço imenso (Babylon By Gus – Vol. II: No Princípio Era O Verbo):
“Tenho alguns esqueletos no armário A luta, contínua, continua e não tem páreo.”
Já A Valsa do Imprevisível, bom… ela se faz imprevisível por si só. É a faixa que desacelera o disco, trazendo uma sensação de melancolia e introspecção em um ritmo que flerta com o shoegaze, mas sem perder a essência da obra como um todo.
Por fim, Wu Wei nos convida à reflexão de que viver consiste em não forçar nada que seja “artificial”, convencional ou puramente voluntário. É sobre não tentarmos moldar as coisas exatamente como desejamos, adotando uma conduta serena, sem esforço, sem tensão e sem interferir no curso natural dos acontecimentos.
Constatar que, quando criei este blog, minha ideia nunca foi fazer as coisas de maneira forçada, mas sim deixar que fluíssem naturalmente, me fez refletir muito sobre a conexão que tive com essa música. Tudo o que escrevo aqui no Som do Silêncio, e nos meus textos de forma geral, sempre foi baseado puramente em minhas experiências, sentimentos e vivências.
No fundo, trata-se de ser honesto consigo mesmo, com o que se sente e com o que se pensa. E isso é algo que, para mim, tem um valor inestimável.
Lá em 2017, quando fui ao meu primeiro show da banda, não imaginava que um dia estaria escrevendo sobre um álbum inédito deles. Naquela noite, o sentimento já era sincero demais, mesmo deixando uma forte saudade no final. Ver toda aquela galera reunida, cantando e sentindo junto, foi algo que me marcou profundamente. E, de certa forma, Brio consegue resgatar essa exata essência e transmiti-la, mais uma vez, para quem ouve.
O que é forte permanece vivo.