britpop

FAKE PLASTIC TREES.

Um regador de plástico, para regar uma planta falsa em um planeta artificial.

Igor Henrique Constant · · 4 min de leitura
FAKE PLASTIC TREES.
Foto: Rogério Grassa

Ultimamente, tenho ouvido muito Britpop durante os meus dias em geral e talvez finalmente eu tenha chegado ao ponto de mudar apenas do Punk/Hardcore e meio que “encaixar” esses sons mais melancólicos na minha rotina.

Eu percebi que isso deu uma aumentada, pós um episódio da série The Bear — disponível no Disney+. Se eu não me engano, foi o último episódio da primeira temporada, no qual tocou Radiohead - Let Down.

Eu me lembro de estar deitado, me preparando para dormir e vendo os minutos finais de um episódio que em tese já é dramático, pois meio que mostrou bastante algumas fragilidades do Carmy.

Cara, nesse momento eu desbanquei de tanto chorar, mas sinto que fazia tempo que eu não chorava assistindo algo, como foi com essa cena final da temporada… Eles abrindo as latas de tomate, tirando o dinheiro delas, rindo, gritando de uma forma leve e divertida, fazendo um contraste absurdo com o início da série no qual a gritaria era só um reflexo absorto e beirava o rude.

E ainda depois a cena deles almoçando junto à receita tradicional, trouxe uma ótica de sentimento relacionado à família, apenas nas trocas de olhares dos atores.

Creio que o contexto do episódio como um todo me emocionou no extremo e ainda enfiaram essa bomba de música no fundo.

Tem momentos que ainda me pego vendo o trecho do episódio, apenas para sentir esse conforto no coração.


Mas agora falando um pouco de Radiohead: quando paro para recordar, talvez nunca tenha sido uma banda que eu ouvi com afinco — talvez meu intelecto fosse limitado artisticamente para entender a mente do Thom Yorke e o que se passava nela. Porém, nos últimos tempos, tem sido uma constante no meu dia, às vezes coisa de só colocar um fone e deixar tocando enquanto programo.

Embora o The Bends (1995) e o OK Computer (1997) sejam os pilares sagrados para a maioria dos fãs, eu guardo um carinho que beira o inexplicável pelo In Rainbows (2007). É um disco que opera em uma frequência diferente; ele não quer apenas que você o escute, ele quer te tirar do eixo.

Toda vez que dou o play, minha cabeça entra automaticamente naquele estado de transe — tipo o meme do pai entrando no quarto e encontrando o filho flutuando. Não é exagero: a produção dele cria uma espacialidade que faz o som parecer tridimensional. É uma tontura boa, um redemoinho de texturas que flutua entre o conforto e o caos.

Eu sinto uma dificuldade genuína em descrever a experiência de ouvir esse álbum, porque ele é um organismo vivo e cheio de contrastes:

  • A Energia Nervosa: Tem momentos de uma urgência absurda, como em Bodysnatchers ou Jigsaw Falling Into Place, onde as guitarras parecem estar sempre prestes a atropelar o ritmo. É uma energia tensa, elétrica, que te deixa em estado de alerta.
  • O Experimentalismo Orgânico: Ao mesmo tempo, ele é profundamente experimental, mas de um jeito diferente do Kid A. No In Rainbows, o estranhamento vem de camadas de arpejos infinitos e percussões que parecem batimentos cardíacos. Músicas como Weird Fishes/Arpeggi te fazem sentir como se estivesse afundando em um oceano profundo, mas, por algum motivo, você não quer emergir.

É uma sensação única. O In Rainbows é o Radiohead no seu estado mais humano e vulnerável. Ele é visceral, é técnico, mas, acima de tudo, é um disco que você sente na pele antes mesmo de processar no cérebro. É, de longe, o meu lugar favorito na discografia deles.


Inclusive, eu tenho pra mim que as melhores apresentações da banda foram aqui no Brasil, sem clubismo. Tem uma apresentação de Fake Plastic Trees — creio que foi em 2009 — que, meus amigos, a montagem do palco, a energia… Só penso que queria ter estado ali para viver aquele momento. É muito louco ver os dois guitarristas dando a vida numa música que dá vontade de cortar os pulsos.

Mas enfim, ouça Radiohead nos seus momentos de silêncio consigo mesmo. Talvez quando as vozes da nossa cabeça estiverem falando muito alto, seja uma boa opção para acalmar e olhar ao redor…

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