latino-americana

TANTAS COSAS BUENAS.

No es difícil de entender… Todo esto se va a perder.

Igor Henrique Constant · · 3 min de leitura
TANTAS COSAS BUENAS.
Foto: Campos Simón

Conheci o Él Mató a un Policía Motorizado alguns anos atrás, e aquela foi a primeira fresta de luz fora da minha bolha. O Él Mató, formado em 2003, me trouxe um questionamento inquietante: por que demorei tanto para cruzar essa fronteira? Há uma poesia crua nas letras deles que ressoa como um desabafo necessário.

“No es difícil de explicar / Si todo esto siempre pasa igual / No es difícil de entender / Todo esto se va a perder”

Depois desse primeiro passo, o caminho se abriu. Logo encontrei o Cuatro Pesos de Propina e a música “Seguir Siendo”. A versão ao vivo se tornou uma das coisas mais bonitas que já ouvi; um lembrete de que somos o que escolhemos carregar no caminho. É surpreendente o quanto perdemos por causa das barreiras que nós mesmos impomos.

Nessa busca por novos fôlegos, tropecei no Boom Boom Kid. Foi como redescobrir o Punk e o Hardcore sob uma nova ótica, mais vibrante e solar: “Todo lo lindo que hay / En mi / En vos”. Seguindo essa trilha de resistência, cheguei ao som poderoso das peruanas da Tomar Control. Elas estiveram aqui em Sorocaba, trazendo uma força que só um álbum como o Frente Al Miedo consegue transmitir. É música que busca respostas e ensina a resistir.

A viagem continuou até a Colômbia com o Doctor Krápula. É um Ska que me faz querer dançar — e olha que eu nem sei dançar! — mas que não perde a mão na crítica social. Em alguns momentos, sinto um eco familiar de Skank, mas com uma urgência latina muito própria.

Já o Eterna Inocencia foi uma das maiores surpresas deste ano, quando os conheci no show com o Dead Fish. “Vientos del Amanecer” se tornou uma das músicas mais belas que já ouvi, trazendo consigo uma sensação de cicatrizes ainda abertas. Ouvir o final dela, com o público cantando a plenos pulmões, faz a gente se sentir acolhido em nossas próprias dores e anseios.

“¿Qué hay del tiempo que ha pasado? / ¿Cuántos cuentos me han quitado? / … de aquellos días encendidos y agobiantes / Hoy solo quedan mis alas, heridas”

Outra música desse álbum ao vivo que me prendeu muito foi “Abrazo”. É uma faixa enérgica, pulsante e curta, porém extremamente reconfortante — tal qual um abraço real. Na letra, tomo a liberdade de trocar “padre” por “madre”, pois sei que, para muitos brasileiros, esse abraço paterno talvez nunca tenha chegado. Sinto uma gratidão imensa toda vez que me lembro do abraço da minha mãe:

“Abrazas igual que tu madre / y me hacés sentir el fin de las soledades / Las que me habitabas hace un tiempo / que yo creía eterno”

O que mais me fascina nesse processo não é apenas a música em si, mas perceber essa América Latina que pulsa, diversa e visceral. São vozes que cantam, dançam e gritam, cada uma do seu jeito, lembrando que o mundo é grande demais para ficarmos parados no mesmo lugar.

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