punk

NEW NOISE.

Uma bombardia quimérica em 12 explosões.

Igor Henrique Constant · · 4 min de leitura
NEW NOISE.
Foto Por: Gustavo Diakov @xchicanox

Parece que este ano entrei em mais um hiperfoco musical, parecido com o que vivi com o Touché Amoré no ano passado. A obsessão da vez é o Refused. Então, vamos nessa, porque temos uma cidade inteira para queimar.

Para situar um pouco do contexto histórico: o Refused surgiu em 1991 na cidade de Umeå, no norte da Suécia. Longe dos grandes centros e imersos na borbulhante cena hardcore sueca dos anos 90.

Ao longo de mais de três décadas, entre hiatos e retornos marcantes, a trajetória da banda se estendeu até o encerramento definitivo de suas atividades em 2025. O adeus final veio acompanhado de uma passagem emblemática da turnê de despedida aqui em São Paulo — um encerramento simbólico para um grupo cuja influência atravessou gerações e redefiniu os limites do gênero.

É quase impossível falar de Refused sem passar por New Noise. Talvez seja a música mais barulhenta e emblemática do grupo, a faixa perfeita para despertar aquela vontade de botar a raiva para fora e questionar o que está ao redor. Ela tem uma estrutura direta, mas a energia e o sentimento que carrega passam longe de qualquer simplicidade.

“Ajuste aquele sorriso de mil dólares, e veja a criação do homem… Grandes palavras não cobrirão ações feias.”

Quando lançaram o histórico The Shape of Punk to Come em 1998 — cujo título ironizava o clássico de jazz The Shape of Jazz to Come (1959), de Ornette Coleman —, eles provocaram uma verdadeira revolução. O álbum desafiou a ortodoxia do hardcore ao misturar peso com elementos de música eletrônica, jazz, drum ‘n’ bass e poesia falada. O disco funcionava como uma síntese do que a banda representava, culminando na clássica Refused Are Fucking Dead, que serviu como um manifesto prévio do próprio fim.

A história por trás desse período carrega uma melancolia única: exaustos pela rotina e frustrados com a incompreensão da cena punk da época, o grupo implodiu no meio de uma turnê norte-americana em 1998, após um último show em um porão ser interrompido pela polícia. Eles entregaram uma obra-prima revolucionária e desapareceram logo em seguida, deixando um vazio enorme e um status lendário que só cresceu com o passar dos anos.

“Com corpos machucados e lábios franzidos… Não temos paciência para lidar com isso.”

Avançando para a fase de retorno, o War Music (2019) mostrou que, mesmo décadas depois, a urgência e a contestação continuavam afiadas. I Wanna Watch the World Burn foi a faixa que mais me pegou nessa fase, traduzindo muito bem a raiva sufocante e a frustração do cotidiano:

“Eu quero ver o mundo queimar pelo que foi feito… Eu quero ver o mundo queimar pelo que nos tornamos.”

Poucas coisas incomodam tanto quanto a sensação de apatia — aquela paralisia de ver os absurdos do dia a dia acontecendo diante de nós e nos sentirmos impotentes. A música do Refused funciona justamente como um antídoto contra essa passividade.

Se a linha do tempo deste texto parece um pouco solta, é porque estou escrevendo no ritmo das lembranças e sentimentos que as músicas me trazem, sem me prender a uma ordem rígida.

Outro trabalho que vale citar é o Freedom (2015), o primeiro álbum pós-reunião. Embora eu tenha ouvido menos do que os outros, ele traz faixas fortíssimas como Françafrique, Destroy The Man e Stolen Voices. A primeira faz uma crítica direta ao neocolonialismo francês na África; a segunda aborda as estruturas de poder que esmagam o indivíduo; e a terceira dá espaço às vozes frequentemente silenciadas pela sociedade.

Musicalmente, o Freedom arriscou ao trazer grooves, metais e corais, soando mais experimental para o histórico do grupo. Mas a essência continuou a mesma — usar a arte como provocação e recusa do status quo.

Vale destacar também como essa energia se desdobrou na cultura pop recente.

O Refused foi a voz por trás da banda fictícia Samurai, do jogo Cyberpunk 2077. Músicas como Chippin’ In e Never Fade Away mostram como a sonoridade e a atitude do grupo se encaixaram com perfeição no universo do jogo, dando vida e autenticidade à rebeldia do personagem Johnny Silverhand.

Além disso, New Noise ganhou novo destaque ao virar peça-chave na trilha sonora da série The Bear, embalando justamente os momentos em que a ansiedade, a tensão e a pressão frenética da cozinha consomem o episódio. Nesses trechos, a música funciona como um reflexo sonoro perfeito do caos e do esgotamento que os personagens sentem — provando que o ruído do Refused continua atemporal e visceral.

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