Visceral — talvez seja essa a única palavra capaz de emoldurar o que é o Ludovic.
Depois de um longo e silencioso inverno, a banda retorna após duas décadas com um álbum homônimo que não carrega o peso do tempo como uma cicatriz esquecida, mas sim como uma ferida que aprendeu a falar. Para mim, é facilmente um dos momentos mais brilhantes e dolorosos de toda a sua trajetória.
Existe aqui uma realidade ainda mais nua, mais crua do que tudo o que eles já ousaram expor.
Olhando para trás — para o fantasma do Idioma Morto —, este novo trabalho resgata memórias e pequenas gotas de uma virtude amarga. Ele nos força a olhar ao redor, encarar a própria sombra no espelho e perguntar em voz baixa:
Será que eu ainda estou vivo ou, desde o dia em que morri, venho apenas empurrando a vida com a barriga?
Mesmo com os anos acumulados nos ombros, a essência do Ludovic permanece intacta, agora entrelaçada a novas camadas de sintetizadores, ruídos e samples que soam como ecos em uma casa vazia.
Amanhece o que foi uma noite de desespero (deixa eu sentir) / São tantas dores, qual surgiu primeiro? (Deixa eu sentir)
Fazia tempo que eu ensaiava escrever sobre eles… Faixas clássicas como “Janeiro Continua Sendo o Pior dos Meses” e “Inexorcizável (Um Zumbido Ensurdecedor)” são quase orações profanas que insisto em apresentar aos outros. A voz do Jair Naves traz uma serenidade mentirosa — uma calma aparente que desmorona a cada verso, carregando todo o peso e o cansaço do mundo.
Há um trecho específico que me persegue há tempos. Ele me faz pensar no quanto nos atrofiamos por escolha, no quanto nos reduzimos só para conseguir caber em espaços que há muito deixaram de ser nossos:
“Só se adequando você vai ter paz”
Mas sei lá… sempre me parece uma conclusão tão preguiçosa. Essa tentativa constante de recondicionar a mente, de nos convencer de que temos algum valor e de não nos sentirmos inferiores diante do outro… é algo que ainda me deixa perplexo. E profundamente esgotado.
Como bem definiu a Revista Vibe sobre o estilo de composição do Jair Naves:
“As letras têm o poder de misturar sentimentos e desorganizar o que poderia ser o óbvio.”
E no fim das contas, talvez seja exatamente isso: a arte de desorganizar a dor que a gente achou que tinha aprendido a arrumar.
Entre as nuances brutais deste disco novo, a faixa que mais me atravessou foi, sem dúvidas, “Desde Que Eu Morri”. Ela captura com uma precisão cirúrgica a angústia sufocada da faixa de abertura, “A Ebulição do Não Dito”, transformando o silêncio acumulado em urgência física.
Eu me agarrei à decisão / Por mais um dia resistir / E me mantive vivo por um triz
Quantos dias você combina consigo mesmo existir apenas mais um dia? Quando há momentos em que o simples ato de acordar e encarar a luz da janela se torna um fardo desmedido, firmar esse acordo silencioso com a gente mesmo passa a ser mais do que necessário — é o único recurso que resta.
O título deste registro não poderia ser outro senão Verniz. O verniz preserva, mas também expõe todas as imperfeições da madeira por baixo. É essa camada fina de sobriedade que passamos por cima de nós todos os dias para parecer inteiros, enquanto por dentro tentamos apenas não desabar de uma vez só.
E talvez seja exatamente por isso que a faixa-título encerra o disco de forma tão espetacular. “Verniz” chega como um ajuste de contas final. A introdução da guitarra soa quase como um aceno lento de adeus — um lamento melancólico que vai se despedindo aos poucos, mas que recusa o silêncio fácil.
Eu arquitetei o inferno / Mas eu continuo a sonhar
Conforme os acordes se dissipam, fica a sensação de que não há mais o que esconder ou mascarar.
E assim… Transbordam em mim, enfim, as cicatrizes de ser feliz.